Amor, Relacionamento, Sobre Gente

Como desenvolver relacionamento saudável?

* Por Priscilla Andrade Camilo

Ouço muito por aí: Eu não confio mais em ninguém, cansei de esperar e não receber, doar e só me frustrar!

É natural que alguns eventos da nossa vida, como a vivência de relacionamentos não saudáveis, nos marque negativamente. No entanto, o maior erro é generalizar todos os outros eventos a partir de um evento doloroso.

O ditado “Gato escaldado tem medo de água fria” explica-se, em partes, por um mecanismo cerebral inteligente… sempre que um evento ou situação seja semelhante ao já experimentado como ameaçador, o mecanismo de esquiva e fuga se deflagra. Tudo isso serve para nos proteger dos perigos e manter nossa sobrevivência.

O mecanismo de fuga ou esquiva está presente na forma de vivenciar novos relacionamentos que outrora foram vividos como dolorosos.

Sempre que nos deparamos com algo que demande entrega, intimidade e confiança, se já sentimos eventos dolorosos em situações semelhantes, isto pode ser o impedimento para se prosseguir.

Nada é possível no campo da vivência humana sem a experiência. Só podemos constatar sabor, textura e cheiro se experimentarmos! Não é porque um relacionamento foi amargo, de textura áspera e mal cheiroso que todos os relacionamentos serão iguais. Somos desafiados pelos nossos sentidos todos os dias, somos, também, enganados pelos sentidos todas as vezes que achamos que não devemos experimentar algo, pois já o conhecemos.

Como saberei se um relacionamento é saudável? A resposta é simples, tudo que é saudável vem da saúde dos relacionamentos, para construir um relacionamento com saúde tem que ser funcional, um relacionamento saudável é funcional pois nos aproxima do outro, de nós mesmos, e nos ajuda a ser pessoas melhores, na visão de todos.

Só é possível manter relacionamentos saudáveis com pessoas confiáveis. Se juntos pensarmos nas características de pessoas confiáveis podemos ter alguns pontos:

  • Uma pessoa que me aceite como eu sou
  • Uma pessoa que não importa o que eu faça ou como eu esteja, me amará sempre
  • Uma pessoa que me ajude a desenvolver minhas capacidades e assim ser um ser humano melhor
  • Alguém com quem eu possa ser autêntico (ser eu mesmo)
  • Alguém que eu veja uma capacidade de amar maior que a minha própria capacidade de amar
  • Alguém que a vida me inspire e me faça ser uma pessoa melhor
  • Alguém que estabelece limites e fronteiras para os outros

Você deve estar se perguntando: Onde está essa pessoa? Ela existe?

Gostaríamos de ter pessoas à nossa volta que nos ajudasse em várias áreas da nossa vida. Mas a questão, muitas vezes, está em nosso olhar.

Como reconhecer algo no outro se não tenho em mim? Pergunte-se à si mesmo: Eu sou uma pessoa que alguém pode nutrir um relacionamento saudável? O reconhecimento surge a partir de você mesmo. Você é essa pessoa confiável?

Se a sua resposta é sim, o seu olhar já está treinado e poderá, com mais facilidade, encontrar tais características no outro. Se a sua resposta é não, busque ser essa pessoa antes de buscar no outro aquilo que lhe falta.

Alguns aspectos do outro nos complementa, outros, amplia em nós capacidades e percepções sobre o mundo.

Minha intenção aqui foi deixar alguns aspectos a serem considerados na busca por relacionamentos saudáveis, no entanto, não substitui a profundidade proporcionada por um acompanhamento individual da psicoterapia, que ajuda a identificar quais os pontos em que o processo pode estar nessa busca.

Amor, Comportamento, Relacionamento

Por que me isolo das pessoas?

* Por Priscilla Andrade Camilo

Todo comportamento humano está baseado em dinâmicas das experiências que passamos pela vida. A dinâmica que escolhemos sobre como vamos nos relacionar com as pessoas, aqui abordaremos só o  afastamento ou  isolamento, tais comportamentos, podem estar ligados à qualidade dos relacionamentos que construímos em nossa base primária tais como o relacionamento com os pais, familiares e amigos.

Somos seres gregários por natureza, sendo a necessidade mais básica e primária do ser humano ser amado. Não dá para ignorar essa necessidade, nem dá para substituí-la por outras coisas, ou quem sabe até fingir que não temos essa necessidade. Ninguém é uma ilha para viver sozinho.

Todas as vezes que a nossa capacidade de aceitar os outros para sobreviver é impedida, ficamos machucados. A experiência do abandono, do ataque e do perfeccionismo podem ser algumas das causas que explicam a opção de alguns indivíduos preferirem o isolamento para assim tentarem não se machucar de novo.

O abandono é quando nos sentimos esquecidos por uma figura importante para nós. Neste caso podem ser pais, cônjuges e amigos. Só há abandono quando há um apego `a alguém ou à algum sentimento. O abandono pode ser físico como um pai que sai de casa e nunca mais volta, e pode ser emocional como um cônjuge depressivo ou alcoólatra onde há privação do contato emocional.

O ataque surge da vulnerabilidade humana todas as vezes que necessitamos de relacionamentos. Não há como amar sem nos expormos para alguém dando a oportunidade de nos magoar. O amor sempre envolve riscos. Nos momentos em que necessitamos de amor e nos abrimos livremente se viermos à nos sentir criticados e maltratados, há de se desenvolver em nós um movimento de esquiva todas às vezes que a aproximação de alguém lembrar uma tentativa de intimidade percebendo tal ação como um ataque, tal como um cão que apanhou que se esquiva da mão que quer dar-lhe carinho. Nesse sentido procure entender que seu isolamento não está lhe ajudando, comece a procurar um amor sem críticas, acredite as pessoas confiáveis existem!

O perfeccionismo pode também ser uma das causas que explicam o isolamento das pessoas. O perfeccionismo se traduz na incapacidade de tolerar erros. Os perfeccionistas têm fobia de imperfeição e defeitos em si mesmos, nos outros e no mundo. São em geral idealistas, passam a maior parte do tempo tentando criando um mundo perfeito, a vida é vista por ele como: “ela deveria ser” e não como se apresenta. Em geral tem muita dificuldade para aceitar o lugar onde vive, são intolerantes com a injustiça dizendo sempre que a igualdade deveria imperar. No fundo o perfeccionista tem uma autocrítica sobre si mesmo: “ Ninguém poderia me amar como realmente sou. Sou negativo e mau”. Então o perfeccionista se isola para se proteger daquilo que ele não gostaria que os outros vissem o  seu “verdadeiro self”, pois assim se afastariam dele.

Estes aspectos aqui  foram brevemente  relatados e não esgota o assunto sobre as possíveis causas do isolamento das pessoas, estes foram alguns e os mais comumente observados na clínica psicológica, no entanto, a compreensão do problema faz nos pensar em possíveis soluções. Os motivos que levam ao isolamento podem ser vários, no entanto a cura para os maus relacionamentos está nos bons relacionamentos com pessoas confiáveis.

As pessoas confiáveis existem, nos próximos posts falaremos por que precisamos deles, onde podemos encontrá-los e o que faz você se tornar confiável.

Amor, Comportamento, Relacionamento

Amar vem de amor

Amar vem de amor – Riobaldo, em Grande Sertão: Veredas (Guimarães Rosa)

O amor é um enigma, existe e deve ser decifrado, mas nunca deixará de ser um mistério.

Este texto foge a tentativa de deixar aqui verdades absolutas sobre o amor. Dada a natureza incompreensível do amor, deixarei aqui algumas tentativas ao falar sobre experiências, observações e especulações da minha trajetória por esse mistério que é o amor. Continue Reading…

Sobre Gente, Sociedade, Vida

“Envelhe-‘SER’”: dádiva ou infortúnio?

* Por Priscilla Andrade Camilo

Durante este feriado de Tiradentes tive o prazer de assistir um filme na Netflix por indicação da minha filha que, por já tê-lo assistido e conhecer muito bem o meu gosto para filmes, indicou “A incrível história de Adaline” (Não ganho absolutamente nada para falar do filme).

O filme não é nenhuma maravilha da sétima arte, nem tem a intenção de tratar uma verdade, mas provocá-la, no entanto. O tema principal, sobre envelhecimento, é tratado de uma forma intrigante, reflexiva e fantástica.

A história se passa com uma jovem que aos 27 anos sofre um acidente de carro, sendo que nesse acidente o seu corpo passa por uma mudança fisiológica causada pela hipotermia à que foi submetida. Suas células param de envelhecer e, a partir desse acontecimento a pergunta que se faz como espectador é: “Envelhecer é uma dádiva ou infortúnio?”

A vida de Adaline é atravessada por esse acontecimento sendo vivenciado pela protagonista de forma muito angustiante e conflituosa. De um lado ela vive em sua imagem corpórea a conservação de sua juventude e beleza, por outro lado as pessoas com que viveu no passado se foram, os seus laços com o passado aparecem materializados apenas na imagem da filha, que por uma desordem natural a filha tem a imagem envelhecida quando comparada à mãe. A imagem invertida se dá quando a filha é que parece que é a mãe, e a mãe que parece que é a filha. Estes e outros muitos problemas aparecem para Adaline por conta do seu não envelhecimento. Quando Adaline passa por uma inspeção rotineira de um guarda policial de uma rodovia, o agente percebe que em sua carteira de motorista, consta uma data de nascimento do início do século que não condiz com a bela imagem de Adaline no auge de seus 40 anos, tal acontecimento leva-a a falsificar uma carteira de identidade para que sua imagem se torne compatível à data de seu nascimento.

A intenção da problemática levantada pelo roteirista é considerar a hipótese de que o não envelhecimento, pode sim causar problemas da ordem do cotidiano, da materialidade da vida, das memórias e da nossa identidade.

Como um processo natural vivido em cada célula, o envelhecimento ocorre desde o primeiro momento em que nascemos, quando nossas células entram em contato com o meio externo  se deflagra uma degeneração celular sem precedentes, são os estados oxidativos celulares que vão sendo alterados até o nosso último suspiro de vida. Como todo processo natural deveria ser encarado de forma natural, somos seres que vivemos a degeneração e a certeza da finitude.

A beleza do filme, claro que em minha humilde opinião como psicóloga e não como crítica de cinema, está em mostrar que “não envelhecer “ levanta uma questão filosófica que é a temporalidade, vivemos em determinado tempo e com a angústia da finitude que o filósofo Heidegger trabalhou exaustivamente em sua obra “Ser e Tempo”. A personagem vivia constantes conflitos por viver um tempo que não lhe pertencia mais, tendo que recorrer à fotos do passado que demarcavam sua identidade e um estado de eterna melancolia.

Por vivermos em determinado tempo, nossa existência é marcada pelas relações que estabelecemos com o meio, com as pessoas e com as coisas. Se por algum segundo vivenciarmos esta “atemporalidade” de nossa existência seremos atravessados pelas angústia em nossas relações com o meio, com as pessoas e com as coisas.

Por este prima existencial e relacional, envelhecer é sim um dádiva. Nossa existência temporal é demarcada por todas as etapas que envolvem nossas relações, somos essencialmente seres relacionais, dito isso, a nossa história de vida se relaciona com o nosso tempo e não fora dele. Se não envelhecêssemos viveríamos um tempo que não constituiria nossa identidade.

O envelhecer nos reconcilia com nosso passado, de forma que ao revisitá-lo em nosso presente, o futuro se constitui como possibilidades de mudanças, alterações de rotas e ressignificações. Nesse processo de ENVELHE-“SER” a célula se regenera e nossa existência é possibilidade de vir a ser o que se quer no presente.

Amor, Casamento, Relacionamento

O que se faz quando o amor acaba?

*Por Priscilla Andrade Camilo

Vivemos por amor e sofremos por amor. Os mártires morrem por amor. O amor é que nos move, mas também é o que nos paralisa. O amor tranquilo pode até nos dar horas de sono, no entanto, a incerteza sobre se é amado pode também tirar o sono. O amor é o combustível, que em doses NÃO homeopáticas, de tão tóxico, cega os aspectos que não queremos ver no outro.

Até aqui tudo bem, sinal que há amor envolvido, no entanto, quando chega a dúvida se existe ainda amor, as coisas tendem a se complicarem bastante.

Os que já amaram e que hoje estão só, tendem a defender que o amor acaba. Os que estão amando e continuam com seus amores preferem militar que o amor nunca acaba. Antes de tentar responder o que fazer se o amor acabar, vamos trilhar pela estrada se de fato o amor acaba.

No início duas vidas se encontram, sentem-se atraídos, vivem um encantamento. A seguir vem a fase das descobertas, da mútua admiração e, de repente, a paixão já tomou conta um do outro, a ponto de mergulharem fundo numa relação de forma tão completa que, se possível, tornam-se um, ao invés de dois.

Com o passar do tempo, como um processo natural de maturação, a relação vai se transformando, a dependência transforma-se em independência, a heteronímia se transforma em autonomia, e nesse ponto, pode acontecer um certo afastamento. Por mais que seja algo natural, nem por isso, causa um certo estranhamento. Os amantes se perguntam: Como assim? O que aconteceu com a gente? E aqui é exatamente o ponto chave. A partir daqui é quando a relação pode terminar ou se transformar.

Um ponto à que se considerar é que os relacionamentos passam por diversas fases, que por suas particularidades, tais fases, devem ser vividas, sentidas e percebidas como um modo sincrônico do desenvolvimento individual de cada um. Quero dizer que, se um dos parceiros percebe que o que antes lhes vinculavam não os vincula mais, algo se transformou. Em alguns casos os parceiros se perdem exatamente nesse processo, algo não está mais como era antes. Nesse sentido, algo não ser mais como era antes, nem sempre é ruim nem bom, apenas mudanças que devem ser encaradas como naturais, dentro de um âmbito maior que invariavelmente se relaciona ao momento de vida de ambos os parceiros. Crises nos relacionamentos nem sempre é o fim, podem ser também oportunidades. Se não for o fim, será transformação, mudanças de direção que podem trazer aspectos para a relação nunca antes vivenciados.

Se for o fim, o luto é inegociável, refletir essa perda que não é só do outro, mas de algo seu que ficou com o outro deve ser encarado e vivenciado. Qualquer tentativa de jogar anestésicos em algo que para aquele momento deve ser vivenciado, ainda que em meio à dor, será frustrante e pouco solucionador. Vários aspectos podem ser indícios que a intimidade acabou, como a falta de admiração, pouca generosidade de um para com outro, falta da atração física, formas de pensar divergentes, no entanto, o tripé de qualquer relação íntima deve estar apoiada em AMOR, ATRAÇÃO E CONFIANÇA. Se existem ainda no relacionamentos alguns desses três eixos, pode ser que o relacionamento não chegou ao fim.  Se existe o tripé todo o resto pode ser construído. Isso não quer dizer que independente do que o outro faz eu tenho que sentir esses três eixos. Ao agir de forma que você perceba que sou confiável, que posso lhe tratar bem e que posso despertar seu amor por mim são ações que independem do outro. Se um dos eixos desse tripé ainda existe, então a busca de uma terapia para casais pode ajudar. As pessoas que pretendem se separar e não se separam não o fazem muitas vezes pois não estão dispostas à pagar o preço.

Talvez diante de tantos cenários possíveis, seja tempo de valorizar a relação que você tem com a pessoa que escolheu e ambas avançarem para o projeto que os uniu, ou quem sabe encarar a dor da perda como algo transformador e repleto de possibilidades pois ainda há vida.

Sociedade, Vida

Boas novas, por favor!

*Por Priscilla Andrade Camilo

Estou começando o ano cansada. Não é um cansaço físico, talvez existencial. Sinto-me cansada de escutar tanta notícia de crise econômica, corrupção, dólar alto, operação lava-jato, tríplex do Lula no Guarujá, Aedes Egipt. “Chico Cunha”, Dengue, Empresa Samarco… só de falar, cansei!

Que venham as águas de Março fechando o verão, trazendo promessas de vida no meu coração. Que o Outono chegue, e traga juntamente com ele novas possibilidades de enxergar todo caos e transformá-lo numa linda árvore que, ainda sem folhas, fica cheia de esperança para a nova estação.

Gosto de observar a natureza e com ela aprender coisas para a vida. Adoro as mudanças de estação do ano, primavera, depois o verão, outono e inverno. Acredito muito nas nossas estações existenciais de vida, estou em pleno inverno existencial, a previsão é de um inverno rigoroso e rígido, estou olhando mais pela janela para ver como está lá fora, me protegendo contra às baixas temperaturas da vida, no entanto, tenho buscado me aquecer.

Como gosto de encurtar caminhos, nada como ir direto à fonte, que é Deus. Nele encontro com os amigos, que me aquecem, e me fazem acreditar que sem a amizade não dá para passar pelo inverno.

O abraço dos meus filhos e marido me aquecem, me fazem acreditar que podemos, em meio ao caos, passar boas coisas para os nossos filhos. O sol que brilha em pleno inverno existencial são as boas novas trazidas por algum conhecido, onde mesmo em meio à crise, está vivendo o melhor ano profissional de sua vida. Ah como aprendo no inverno, tenho muita vontade de ficar na cama quentinha, lendo livros ou assistindo filmes.

Queremos boas novas em qualquer estação do ano. Precisamos ter mais prazer em compartilhar tantas coisas boas que nos tem acontecido. Parece que as coisas simples como ter vida, saúde e alegria se tornou pouco para um mundo que se inclina mais para o caos. É fato que a indústria jornalística vive de noticiar o caos.

Eu ainda prefiro ser alguém que leve muitas boas novas para onde eu for. O caos existe mesmo, ele pode estar fora ou dentro de você, no entanto, a percepção sobre um mesmo objeto pode ser variado.

Prefiro ver as coisas com esperança, fé e otimismo, isso sem perder a realidade.

Espalhe boas novas e transforme seu pequeno mundo.

Casamento, Relacionamento

Por que casar, afinal?

*Por Priscilla Andrade Camilo

A pergunta é curta mas a resposta é longa. Não pretendo dar todas as respostas possíveis à essa pergunta, no entanto, tenho algumas ideias e percepções acerca dos motivos que levam pessoas a se casarem…

O ponto alto de toda cerimônia de casamento no religioso é a frase “clássica” que o sacerdote, pastor, padre, ou quem quer que esteja celebrando a cerimônia faz: “Promete ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde ou na doença?”. Pergunta difícil de responder, mas que em geral, os noivos respondem prontamente que sim, pois ao topar em se casar, já está implícita a ideia da “incondicionalidade” dessa relação às vicissitudes da vida.

Há quem diga que o casamento está fora de moda. Há quem os defenda como uma instituição eterna. O fato é que as pessoas ainda se casam em todo mundo, no Brasil, existe uma indústria ávida por celebrar festas impecáveis de casamento, e nas rodas de conversas de solteirões e solteironas essa possibilidade de casar-se no futuro nem sempre está fechada. Em toda a história da humanidade o casamento aparece como uma instituição que tem motivos para existir, os motivos vão desde os religiosos para proporcionar a instituição da família, motivos sociais para manter o patrimônio e a estabilidade social e os mais modernos que é o motivo da felicidade. Dada em contrapartida a quantidade de divórcios realizados atualmente, a inconstância do romantismo, a dificuldade de compartilhar e seguir juntos com outras pessoa, resta somente a dúvida se casar faz a gente mais feliz. Muitas pessoas reclamam de suas relações, dizendo que o casamento não lhes proporcionam a segurança que buscavam, reclamam da rotina enfadonha do casamento, sentem-se sufocados e castrados em seus desejos naturais. Esse cenário coloca uma importante questão: Por que casar, afinal?

Para além das questões morais e religiosas, o casamento tem uma função sagrada maior? O desejo de constituir uma família com filhos e netos se sobressai à tortura da castração dos desejos por liberdade? Pode o casamento ao invés de ser um instrumento de tortura promover inspiração e segurança? O casamento não é apenas um instrumento que rege a vida social e religiosa dos sujeitos, dando lhe funcionalidade e especificidade das relações. Na ideia do casamento está contida a potência de dar forma à uma espécie de recipiente em que são depositados amor e paixão, disciplina e trabalho. O casamento trabalha muito bem a ideia dos opostos e das polaridades, não há como ter trabalho sem disciplina, não há amor que não tenha passado pela paixão. Esse recipiente cheio de opostos são como uma alquimia, que necessita de processos criativos. A ideia de um recipiente faz com que coloquemos nossa energia com uma meta de crescermos juntos e com um único compromisso de dar novas formas para esse mesmo recipiente. O crescimento invariavelmente obriga duas pessoas enfrentarem obstáculos, estes são ameaçadores daquilo que os une, no entanto, serão esses mesmos obstáculos que ajudará a dar uma nova forma, sem se preocupar com um molde preconcebido.

O compromisso de se utilizar esse recipiente afim de encaixar naturezas tão diferentes de duas pessoas, em que determinadas fases passará pelo refinamento do calor e do compromisso existencial entre elas, fará com que nenhuma energia se dissipe e escoe por negligência ou falta de cuidado, antes será um depositário das qualidades humanas mais excelentes.

É muito improvável que um casamento seja transformador sem passar por dores e dificuldades. Em geral, na relação do casamento, entramos em contato com aspectos profundos do nosso psiquismo, como os nossos medos e a agressividade. A disposição do casal de trabalhar um com o outro na saúde e na doença, cria um contexto sagrado afim que se possam se encontrar não só um ao outro, mas a si próprio. A possibilidade de expôr nossas maiores vulnerabilidades ao cônjuge faz com que juntos, nos sintamos relaxados e humanos, sendo amados apesar de nossas vulnerabilidades.

Para revitalizarmos a ideia por que casar, acho interessante pensar em um caminho sagrado que não necessariamente se relaciona à religião. A devoção de dois indivíduos que estão na busca de dar uma forma terrena ao amor, que se disponha a trabalhar um com o outro seus aspectos sombrios, ajudando ao outro a compreender a si próprio, o casamento lhes ajuda a perceber dentro de um contexto sagrado como “dois se tornam um”. A minha fé em um Deus criador não me deixa dúvidas sobre o que ele mesmo proferiu em Gênesis 2:18 “Não é bom que o homem esteja só.

Morte, Vida

A dor insuportável das perdas

*Por Priscilla Andrade Camilo

Trabalho todos os dias com a perda de algo. Não, eu não trabalho nos achados e perdidos de alguma repartição pública, trabalho com “gente”, e olha que gente perde muitas coisas durante a vida.

A primeira perda na vida de uma pessoa é a da ligação umbilical com a mãe, ligação que nutre e sustenta o bebê em sua vida intrauterina. A partir de então, seguem-se muitas outras perdas durante todo o processo de desenvolvimento humano… perde-se a criança que foi para tornar-se o adulto, perde-se a inocência que se tinha pela malícia que necessita, perde-se a proteção dos pais para ganhar a autonomia, perde-se o vigor da juventude para ganhar a sabedoria da velhice.

Olhando assim, parece que temos sempre de perder algo para ganhar outra coisa, como um processo antagônico, no entanto, viver plenamente é permitir que as coisas se findem para dar lugar a outras, para isso, é preciso soltá-las.

A saúde das relações humanas, depende em grande parte da capacidade dos indivíduos quando diante de uma perda real ou imaginária, se apropriar da consciência de que algo não está mais, de modo que a vida não fique comprometida, presa.

Embora pareça um fato irreal, todos nós vamos desenvolvendo uma certa elasticidade para as perdas que vamos ter que lidar na vida. Algumas dores parece que a corda é mais flexível, outras, parece que a corda vai arrebentar, tamanha a dor que se sente, no entanto, existe uma ideia implícita de que não iremos suportar a dor da perda, do abandono ou do fim. O mito de não suportar a dor se relaciona com as poucas possibilidades que temos de conhecer nossos reais limites e os condicionamentos aos quais somos expostos de modo sutil. Algum tempo atrás conheci o conto do camelo que deve ilustrar muito bem isso:

“Ao cair da noite, a caravana do deserto se detém. O garoto encarregado dos camelos se aproxima do guia da caravana e diz:

– Estamos com um problema: temos 20 camelos e 19 cordas. O que faço?

O guia responde:

– Olhe, os camelos são muito tolos, depois de amarrar todos os outros, aproxime-se do último camelo e finja que o está amarrando. Ele vai acreditar que está preso e vai ficar quieto.

Um pouco desconfiado, o rapaz segue as instruções e o camelo, de fato, fica ali parado como se estivesse amarrado.

Na manhã seguinte, quando se levantam, o tratador conta os camelos. Os 20 continuam ali.

Os mercadores carregam tudo e a caravana retoma o caminho. Todos os camelos avançam em fila para a cidade. Todos, menos um, que permanece parado.

– Chefe, um dos camelos não está seguindo a caravana.

– É o que você não amarrou ontem porque não tinha corda?

– Sim. Como sabe?

– Não importa. Vá lá e finja que o desamarra, senão ele vai continuar achando que está preso e não começará a andar.

O conto do camelo ilustra o quanto estamos condicionados culturalmente pela educação que não estamos preparados para perdas.

Se realmente podemos suportar as perdas, o modo como enfrentá-las é que surge como um raio de esperança em meio à tanta dor. A desolação é inevitável, pensar no medo que talvez não haja com quem seguir em frente assusta. O medo de ter que enfrentar a tristeza sozinhos, nos faz sentir-se impotentes e abandonados.

Após ter passado pela dor da ausência, depois de ter sofrido e chorado bastante não é incomum se deparar com atitudes às vezes esquisitas, que permitam encontrar um pouco do objeto perdido dentro de nós mesmos. Usar roupas parecidas com a pessoa que se perdeu, saborear comidas que a pessoa gostava, ouvir o tipo de música que a pessoa ouvia, de forma que se crie pontes de ligação com o objeto perdido. Essas pontes de ligação é o início da saída de um luto intenso. Esse processo pode ser lento, mas transformador no sentido de encontrar uma ação construtiva ligada à dor.

Lacan diz que em relação à perda “Choramos por aqueles a quem devemos o que somos”. Nesse sentido a dor da perda é também uma dor da perda do que nos constituiu, se você se constituiu tal como é, isso se perde também. Na verdade é uma perda de nós mesmos.

O grande desafio talvez seja reconhecer que como adulto sadio podemos enfrentar as perdas. Aliás, a grande sacada da vida é lembrar-se da nossa finitude, pois um dia não estaremos aqui, não sentiremos mais as perdas e as dores.

Amor, Relacionamento

Não dá para amar sem se importar

*Por Priscilla Andrade Camilo

Amar não é coisa fácil. Muitos dizem amar algo ou alguém, no entanto, o verbo amar sem se importar sai da boca, sem lastro.

Amar vem do campo dos afetos, como tal, para amar é necessário afetar-se. Como assim afetar-se? Aquilo que nos afeta também nos importa. Não dá para amar algo ou alguém sem se interessar pelo que o outro sente e pelo seu bem-estar.
Não dá para amar sem se importar! É claro que temos a tendência de se importar com o que está perto, no entanto, pode-se amar também se importando com os que estão longe, como os refugiados da Síria ou as mulheres que são mutiladas na África. No entanto, aqui, quero me deter neste post ao afeto que dedicamos em especial à alguém, ao ser amado seja homem ou mulher.

É interessante observar que muitos duvidam se são realmente amados por seus cônjuges, namorados, noivos e “ficantes”. Não é raro a pergunta: Como sei que Fulano ou Beltrano me ama? Quando alguém o ama de verdade suas ações falam por si. O ser amado é afetado pelo amor do outro e vice-versa. Diante disso, por um segundo, pode-se pensar que amar e demonstrar amor são sinônimos. Amor é um só, as expressões de amor é que são múltiplas. Existe a minha maneira de demonstrar amor e existe a sua maneira de demonstrar amor.

Quando existem problemas acerca das dificuldades de decodificar as maneiras de se amar, se espera que o outro demonstre amor à nossa maneira, pois decodificar as maneiras de amar do outro dá trabalho, nesse sentido, nada melhor que projetar a nossa maneira escolhida como sendo a única correta para se amar. As projeções das maneiras corretas de se amar, em geral, surgem com as iniciais “eu esperava que ele fizesse”, “eu esperava que ela dissesse”, que bem lá no fundo, é a nossa maneira de expressar amor projetado no outro, que nada mais é que um mecanismo de identificação projetiva. Cada um demonstra amor de um jeito peculiar. Pode-se amar muito e demonstrar pouco, mas ainda assim é amor.

A partir dessa ideia, existem maneiras de expressar amor, de deixar-se afetar pelo amor e ser afetado por ele. O único meio seguro de saber se algo é amor, será usando a régua do afeto, quanto mais se importa, quanto mais o bem estar do outro é importante mais próximo esse sentimento está do amor.

Cabe a cada um se dispor em demonstrar esse amor, de forma que aquele que receba, saiba decodifica-lo como tal, se não houver afeto não há amor se não há amor não há afeto.