“Envelhe-‘SER’”: dádiva ou infortúnio?

* Por Priscilla Andrade Camilo

Durante este feriado de Tiradentes tive o prazer de assistir um filme na Netflix por indicação da minha filha que, por já tê-lo assistido e conhecer muito bem o meu gosto para filmes, indicou “A incrível história de Adaline” (Não ganho absolutamente nada para falar do filme).

O filme não é nenhuma maravilha da sétima arte, nem tem a intenção de tratar uma verdade, mas provocá-la, no entanto. O tema principal, sobre envelhecimento, é tratado de uma forma intrigante, reflexiva e fantástica.

A história se passa com uma jovem que aos 27 anos sofre um acidente de carro, sendo que nesse acidente o seu corpo passa por uma mudança fisiológica causada pela hipotermia à que foi submetida. Suas células param de envelhecer e, a partir desse acontecimento a pergunta que se faz como espectador é: “Envelhecer é uma dádiva ou infortúnio?”

A vida de Adaline é atravessada por esse acontecimento sendo vivenciado pela protagonista de forma muito angustiante e conflituosa. De um lado ela vive em sua imagem corpórea a conservação de sua juventude e beleza, por outro lado as pessoas com que viveu no passado se foram, os seus laços com o passado aparecem materializados apenas na imagem da filha, que por uma desordem natural a filha tem a imagem envelhecida quando comparada à mãe. A imagem invertida se dá quando a filha é que parece que é a mãe, e a mãe que parece que é a filha. Estes e outros muitos problemas aparecem para Adaline por conta do seu não envelhecimento. Quando Adaline passa por uma inspeção rotineira de um guarda policial de uma rodovia, o agente percebe que em sua carteira de motorista, consta uma data de nascimento do início do século que não condiz com a bela imagem de Adaline no auge de seus 40 anos, tal acontecimento leva-a a falsificar uma carteira de identidade para que sua imagem se torne compatível à data de seu nascimento.

A intenção da problemática levantada pelo roteirista é considerar a hipótese de que o não envelhecimento, pode sim causar problemas da ordem do cotidiano, da materialidade da vida, das memórias e da nossa identidade.

Como um processo natural vivido em cada célula, o envelhecimento ocorre desde o primeiro momento em que nascemos, quando nossas células entram em contato com o meio externo  se deflagra uma degeneração celular sem precedentes, são os estados oxidativos celulares que vão sendo alterados até o nosso último suspiro de vida. Como todo processo natural deveria ser encarado de forma natural, somos seres que vivemos a degeneração e a certeza da finitude.

A beleza do filme, claro que em minha humilde opinião como psicóloga e não como crítica de cinema, está em mostrar que “não envelhecer “ levanta uma questão filosófica que é a temporalidade, vivemos em determinado tempo e com a angústia da finitude que o filósofo Heidegger trabalhou exaustivamente em sua obra “Ser e Tempo”. A personagem vivia constantes conflitos por viver um tempo que não lhe pertencia mais, tendo que recorrer à fotos do passado que demarcavam sua identidade e um estado de eterna melancolia.

Por vivermos em determinado tempo, nossa existência é marcada pelas relações que estabelecemos com o meio, com as pessoas e com as coisas. Se por algum segundo vivenciarmos esta “atemporalidade” de nossa existência seremos atravessados pelas angústia em nossas relações com o meio, com as pessoas e com as coisas.

Por este prima existencial e relacional, envelhecer é sim um dádiva. Nossa existência temporal é demarcada por todas as etapas que envolvem nossas relações, somos essencialmente seres relacionais, dito isso, a nossa história de vida se relaciona com o nosso tempo e não fora dele. Se não envelhecêssemos viveríamos um tempo que não constituiria nossa identidade.

O envelhecer nos reconcilia com nosso passado, de forma que ao revisitá-lo em nosso presente, o futuro se constitui como possibilidades de mudanças, alterações de rotas e ressignificações. Nesse processo de ENVELHE-“SER” a célula se regenera e nossa existência é possibilidade de vir a ser o que se quer no presente.

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