Casamento, Relacionamento

Por que casar, afinal?

*Por Priscilla Andrade Camilo

A pergunta é curta mas a resposta é longa. Não pretendo dar todas as respostas possíveis à essa pergunta, no entanto, tenho algumas ideias e percepções acerca dos motivos que levam pessoas a se casarem…

O ponto alto de toda cerimônia de casamento no religioso é a frase “clássica” que o sacerdote, pastor, padre, ou quem quer que esteja celebrando a cerimônia faz: “Promete ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde ou na doença?”. Pergunta difícil de responder, mas que em geral, os noivos respondem prontamente que sim, pois ao topar em se casar, já está implícita a ideia da “incondicionalidade” dessa relação às vicissitudes da vida.

Há quem diga que o casamento está fora de moda. Há quem os defenda como uma instituição eterna. O fato é que as pessoas ainda se casam em todo mundo, no Brasil, existe uma indústria ávida por celebrar festas impecáveis de casamento, e nas rodas de conversas de solteirões e solteironas essa possibilidade de casar-se no futuro nem sempre está fechada. Em toda a história da humanidade o casamento aparece como uma instituição que tem motivos para existir, os motivos vão desde os religiosos para proporcionar a instituição da família, motivos sociais para manter o patrimônio e a estabilidade social e os mais modernos que é o motivo da felicidade. Dada em contrapartida a quantidade de divórcios realizados atualmente, a inconstância do romantismo, a dificuldade de compartilhar e seguir juntos com outras pessoa, resta somente a dúvida se casar faz a gente mais feliz. Muitas pessoas reclamam de suas relações, dizendo que o casamento não lhes proporcionam a segurança que buscavam, reclamam da rotina enfadonha do casamento, sentem-se sufocados e castrados em seus desejos naturais. Esse cenário coloca uma importante questão: Por que casar, afinal?

Para além das questões morais e religiosas, o casamento tem uma função sagrada maior? O desejo de constituir uma família com filhos e netos se sobressai à tortura da castração dos desejos por liberdade? Pode o casamento ao invés de ser um instrumento de tortura promover inspiração e segurança? O casamento não é apenas um instrumento que rege a vida social e religiosa dos sujeitos, dando lhe funcionalidade e especificidade das relações. Na ideia do casamento está contida a potência de dar forma à uma espécie de recipiente em que são depositados amor e paixão, disciplina e trabalho. O casamento trabalha muito bem a ideia dos opostos e das polaridades, não há como ter trabalho sem disciplina, não há amor que não tenha passado pela paixão. Esse recipiente cheio de opostos são como uma alquimia, que necessita de processos criativos. A ideia de um recipiente faz com que coloquemos nossa energia com uma meta de crescermos juntos e com um único compromisso de dar novas formas para esse mesmo recipiente. O crescimento invariavelmente obriga duas pessoas enfrentarem obstáculos, estes são ameaçadores daquilo que os une, no entanto, serão esses mesmos obstáculos que ajudará a dar uma nova forma, sem se preocupar com um molde preconcebido.

O compromisso de se utilizar esse recipiente afim de encaixar naturezas tão diferentes de duas pessoas, em que determinadas fases passará pelo refinamento do calor e do compromisso existencial entre elas, fará com que nenhuma energia se dissipe e escoe por negligência ou falta de cuidado, antes será um depositário das qualidades humanas mais excelentes.

É muito improvável que um casamento seja transformador sem passar por dores e dificuldades. Em geral, na relação do casamento, entramos em contato com aspectos profundos do nosso psiquismo, como os nossos medos e a agressividade. A disposição do casal de trabalhar um com o outro na saúde e na doença, cria um contexto sagrado afim que se possam se encontrar não só um ao outro, mas a si próprio. A possibilidade de expôr nossas maiores vulnerabilidades ao cônjuge faz com que juntos, nos sintamos relaxados e humanos, sendo amados apesar de nossas vulnerabilidades.

Para revitalizarmos a ideia por que casar, acho interessante pensar em um caminho sagrado que não necessariamente se relaciona à religião. A devoção de dois indivíduos que estão na busca de dar uma forma terrena ao amor, que se disponha a trabalhar um com o outro seus aspectos sombrios, ajudando ao outro a compreender a si próprio, o casamento lhes ajuda a perceber dentro de um contexto sagrado como “dois se tornam um”. A minha fé em um Deus criador não me deixa dúvidas sobre o que ele mesmo proferiu em Gênesis 2:18 “Não é bom que o homem esteja só.

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