A dor insuportável das perdas

*Por Priscilla Andrade Camilo

Trabalho todos os dias com a perda de algo. Não, eu não trabalho nos achados e perdidos de alguma repartição pública, trabalho com “gente”, e olha que gente perde muitas coisas durante a vida.

A primeira perda na vida de uma pessoa é a da ligação umbilical com a mãe, ligação que nutre e sustenta o bebê em sua vida intrauterina. A partir de então, seguem-se muitas outras perdas durante todo o processo de desenvolvimento humano… perde-se a criança que foi para tornar-se o adulto, perde-se a inocência que se tinha pela malícia que necessita, perde-se a proteção dos pais para ganhar a autonomia, perde-se o vigor da juventude para ganhar a sabedoria da velhice.

Olhando assim, parece que temos sempre de perder algo para ganhar outra coisa, como um processo antagônico, no entanto, viver plenamente é permitir que as coisas se findem para dar lugar a outras, para isso, é preciso soltá-las.

A saúde das relações humanas, depende em grande parte da capacidade dos indivíduos quando diante de uma perda real ou imaginária, se apropriar da consciência de que algo não está mais, de modo que a vida não fique comprometida, presa.

Embora pareça um fato irreal, todos nós vamos desenvolvendo uma certa elasticidade para as perdas que vamos ter que lidar na vida. Algumas dores parece que a corda é mais flexível, outras, parece que a corda vai arrebentar, tamanha a dor que se sente, no entanto, existe uma ideia implícita de que não iremos suportar a dor da perda, do abandono ou do fim. O mito de não suportar a dor se relaciona com as poucas possibilidades que temos de conhecer nossos reais limites e os condicionamentos aos quais somos expostos de modo sutil. Algum tempo atrás conheci o conto do camelo que deve ilustrar muito bem isso:

“Ao cair da noite, a caravana do deserto se detém. O garoto encarregado dos camelos se aproxima do guia da caravana e diz:

– Estamos com um problema: temos 20 camelos e 19 cordas. O que faço?

O guia responde:

– Olhe, os camelos são muito tolos, depois de amarrar todos os outros, aproxime-se do último camelo e finja que o está amarrando. Ele vai acreditar que está preso e vai ficar quieto.

Um pouco desconfiado, o rapaz segue as instruções e o camelo, de fato, fica ali parado como se estivesse amarrado.

Na manhã seguinte, quando se levantam, o tratador conta os camelos. Os 20 continuam ali.

Os mercadores carregam tudo e a caravana retoma o caminho. Todos os camelos avançam em fila para a cidade. Todos, menos um, que permanece parado.

– Chefe, um dos camelos não está seguindo a caravana.

– É o que você não amarrou ontem porque não tinha corda?

– Sim. Como sabe?

– Não importa. Vá lá e finja que o desamarra, senão ele vai continuar achando que está preso e não começará a andar.

O conto do camelo ilustra o quanto estamos condicionados culturalmente pela educação que não estamos preparados para perdas.

Se realmente podemos suportar as perdas, o modo como enfrentá-las é que surge como um raio de esperança em meio à tanta dor. A desolação é inevitável, pensar no medo que talvez não haja com quem seguir em frente assusta. O medo de ter que enfrentar a tristeza sozinhos, nos faz sentir-se impotentes e abandonados.

Após ter passado pela dor da ausência, depois de ter sofrido e chorado bastante não é incomum se deparar com atitudes às vezes esquisitas, que permitam encontrar um pouco do objeto perdido dentro de nós mesmos. Usar roupas parecidas com a pessoa que se perdeu, saborear comidas que a pessoa gostava, ouvir o tipo de música que a pessoa ouvia, de forma que se crie pontes de ligação com o objeto perdido. Essas pontes de ligação é o início da saída de um luto intenso. Esse processo pode ser lento, mas transformador no sentido de encontrar uma ação construtiva ligada à dor.

Lacan diz que em relação à perda “Choramos por aqueles a quem devemos o que somos”. Nesse sentido a dor da perda é também uma dor da perda do que nos constituiu, se você se constituiu tal como é, isso se perde também. Na verdade é uma perda de nós mesmos.

O grande desafio talvez seja reconhecer que como adulto sadio podemos enfrentar as perdas. Aliás, a grande sacada da vida é lembrar-se da nossa finitude, pois um dia não estaremos aqui, não sentiremos mais as perdas e as dores.

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