Navegar é preciso

*Por Priscilla Andrade Camilo

Algum tempo atrás fiz um cruzeiro, foi uma experiência incrível, nunca havia feito antes, foi diferente, não só por estar fazendo algo pouco corriqueiro tal como pegar uma estrada ou ir para um aeroporto, mas simplesmente porque navegar é bom demais. Minha estrada nesse cruzeiro era o mar aberto, esplendoroso, um mundo submerso de mistérios pouco conhecido por nós, mar cheio de possibilidades, ora estava calmo, ora estava revolto, multicor e majestoso.

Sempre que viajo procuro não somente me deslocar para algum lugar diferente, me desloco de mim mesma, olhando para a vida paralela que se passa enquanto eu trabalho, estudo, cuido e vivo meu cotidiano. A sensação de que a nossa vida é única nos faz às vezes acreditar que não existe nada além da nossa vidinha.

Essa viagem foi existencialmente singular, saí do porto de Santos com a ideia de desembarcar só no Rio de Janeiro, o navio atracaria em  uma praia que eu visitara à muito tempo, tinha intenção de revê-la desembarcando lá. Ao chegarmos no litoral do Rio de Janeiro o clima estava ruim, chovia  e ventava apesar de muito calor, acabei decidindo ficar e curtir o navio. Seguindo viagem à nosso outro belo destino chegamos à Ilha Bela no lindo litoral de São Paulo,  o mar estava incrível, o céu azul, hesitei em desembarcar por preguiça, estava tão bem acomodada no navio com a vista magnífica da llha Bela através do navio, até que decidi desembarcar um pouco para passear em terra firme e poder olhar a suntuosidade do navio a partir da praia.

Desci em  Ilha Bela que já era bem conhecida por mim, mas foi lá que voltei a entrar em contato com velhos sonhos que até havia me esquecido. Eu sempre gostei de praia, apesar de ser uma mulher urbana e curtir a vida da cidade grande, no entanto, o cheiro de mar, olhar para o mar, observar a leveza das pessoas na praia me promove muito relaxamento e até uma certa melancolia. Quando sai da embarcação que nos levou até a cidade de Ilha Bela, uma sensação estranha tomou conta de mim, fui invadida por uma melancolia e me encontrei em lágrimas. Encontrei em Ilha Bela um velho baú existencial, lá estava um velho tesouro escondido, ao abrir dei de cara com os meus velhos sonhos, tão bem escondidos por uma série de defesas que criamos para continuar existindo. Sonhos que talvez sejam até de minha infância.  Não foi coincidência eu reencontrar os meus sonhos navegando, afinal eu acho que precisei  guardar os sonhos em lugar profundo, nesse quesito nada melhor que o mar em manter intactos o que fica em seu profundo oceano. E lá estava o meu sonho intacto, exatamente como eu havia deixado.

Aprendi nessa viagem que navegar é preciso, mar é cheio de possibilidades, imprevisível e majestoso como a vida, revisitar  lugares já conhecidos nem sempre é um mal negócio, afinal foi lá que entrei em contato com os meus sonhos que são como tesouros escondidos.

Voltei dessa viagem com a bagagem mais pesada do que levei, bagagem repleta de possibilidades, encontros, ideias e novos projetos. Meu sonho estava escondido e eu encontrei-o. Guardei agora na minha gaveta existencial. Agora ele não fugirá mais de mim, pois trouxe uma barco à vela de lembrança que me fará lembrar todos os dias que navegar é preciso, assim como sonhar também é preciso.

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