No amor não há garantias

*Por Priscilla Andrade Camilo

Hoje, manter viva uma relação íntima com alguém, faz com que entremos em contato com aspectos nunca antes conhecidos de nós mesmos. Antigamente, quando alguém desejava conhecer os mistérios da vida e do ser, se internava em um mosteiro e lá ficava recluso. Para muitos de nós mesmos, o relacionamento íntimo e amoroso tem se tornado essa terra nova, terreno pedregoso, solo escorregadio, terra que pode ser desbravada e explorada, com o risco de lá encontrarmos nossos anjos e demônios que sorrateiramente aparecem sem nos avisar.

É necessário dizer que os relacionamentos amorosos proporcionam um despertar da nossa natureza mais profunda, isto é, sentimentos de medos, desejos, raiva, alegria, ódio, prazer, dor entre outros sentimentos. Para tais sentimentos nenhuma seguradora conseguiu desenvolver uma espécie de apólice do amor, que nos protegesse dos possíveis danos e perdas desse amor, pois no amor não há garantias. Penso que trilhar os caminhos do amor, pode ser comparada à uma viagem que se compra em uma agencia de turismo, você pede o destino ao agente de turismo, lá você saberá sobre alguns detalhes do destino, no entanto, a experiência da viagem será bem diferente das fotos que você viu na revista da agência. Só indo para o destino para saber como é o lugar, o que se têm para fazer, qual o tamanho real dos locais, como é que são as pessoas, qual cheiro tem a cidade e qual sabor tem a comida. Quando se aceita o amor para fazer parte de sua caminhada, tem que estar preparado para os desafios e aventuras dessa escolha.

Estamos acostumados no desenvolvimento de nossa identidade social à desempenharmos papéis bem definidos, é sabido o que se espera de uma mãe em relação ao filho, assim como de uma relação patrão e empregado, e também da relação aluno e professor. O amor também foi se transformando em seu papel nos relacionamentos, vivemos ainda o amor romântico, que nada mais é que estar junto com alguém por amor e por livre e mútuo consentimento. Em outros tempos o amor não foi critério para as pessoas estarem juntas, os critérios para ser casarem eram econômicos e sociais, casamento significava manutenção do patrimônio da família, casar-se só era válido quando os pais referendavam qual seria o melhor cônjuge para a filha baseados em tais critérios.

Como seres humanos, sabemos pouco sobre nós mesmos, é desafiante habitar num corpo que vez ou outra nos surpreende com um vírus ou uma bactéria, trazemos também nossos questionamentos sobre quem nós somos, temos dificuldades em lidar com os nossos sentimentos. Todos esses conflitos são vivenciado no nível pessoal, imagine quão mais desafiante é vivenciá-los nos relacionamentos amorosos e íntimos, quando temos que nos desnudar ao outro de corpo e alma. Nossas dúvidas à respeito do amor, se tornam mais difíceis quando achamos que já temos as respostas. O amor é sempre compartilhado, isso envolve compartilhar também a dúvida, pois é na intimidade compartilhada é que deixamos o amor fluir e nos rendemos à ele, sem medo e sem reservas.

Tenho observado nas pessoas a busca por soluções prontas para o amor, no entanto a vida não é assim, logo o amor não poderia ser diferente. Ainda que houvessem respostas instantâneas, precisaríamos de uma disposição interior para mudança, é sabido que as pessoas colocam em prática algumas técnicas por algum tempo, mas rapidamente serão esquecidas. O componente mais poderoso para transformações em nosso interior é a mudança de sentimentos, isso só pode acontecer quando deixamos que as dificuldades e os problemas operem uma mudança que nos afete de verdade.

Por isso ao invés de descobrir técnicas para eliminar problemas, um caminho possível é lidar com as dificuldades e os problemas nos relacionamentos, integrando-os a experiência do viver de forma que nos mobilizemos afim de criarmos relacionamentos bons e duradouros. Não há dúvidas que ter que lidar com a incerteza sobre os relacionamentos gera ansiedade, afinal é um campo sempre desconhecido. Não é da natureza dos relacionamentos íntimos a segurança, há sempre muito mistério, talvez por isso seja fascinante. No amor nos colocamos frente ao outro, exploramos o nosso “eu” desconhecido e também o “eu” desconhecido do outro, no entanto, esse desvelar é que revela a complexidade do relacionamento e a profundidade desse amor.

Cabe pois a cada um, a escolha de se viver o amor , ainda que seja sem garantias, passamos a usar cada obstáculo desse mesmo caminho como parte do nosso caminho.

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