Comportamento, Espiritualidade, Relacionamento, Sociedade

Sente-se amado só quem é escutado

Se existe algo que determina se um relacionamento terá sucesso ou não, tem a ver com o grau de quantos os parceiros sentem-se ouvidos. Rubem Alves cita uma frase que elucida brilhantemente esse processo: Viajar é fácil. O difícil é a gente desembarcar da gente mesmo.

Cruzar os mares, embarcar e desembarcar nos aeroportos pode ser monótono e chato, todos esses procedimentos não fazem uma viagem ser uma viagem, pode ser apenas uma passagem. Só viaja quem desembarca de si mesmo, percebe, sente, cheira e quem vê o que nenhuma câmera fotográfica fotografou. Assim é também nos relacionamentos amorosos, só sente-se amado quem se desembarca de si mesmo para escutar o outro. Muitos casais me procuram para aprender a melhorar sua forma de comunicação, no entanto, quando se ouvem questões que são colocadas por ambos, geralmente os problemas são os da escuta.

A verdade é que não somos formados culturalmente nem pedagogicamente para ser bons ouvintes, principalmente nós, brasileiros, falantes, esfuziantes, cinestésicos e verborrágicos. Não sabemos e não somos ensinados a como ouvir o outro, digo “ouvir” de uma forma profunda, que nos traga até uma certa saciedade espiritual, um senso de plenitude e compreensão, uma escuta que conecta um ao outro e nos faça sentir amado ao ouvir o outro.

A explicação da dificuldade para esse fenômeno pode ser múltiplo, desde uma cultura hedonista, que busca o prazer a qualquer custo – nesse sentido, ouvir, pode ser desconfortável, nem sempre gera prazer e, até uma certa dose de egoísmo vitimizante, típico daqueles que sentem-se como os únicos que sofrem, então precisam mais falar do seu sofrimento do que ouvir o do outro.

Aprendemos a ouvir com a cabeça e não com o coração. Rubem Alves tinha razão ao dizer que difícil é desembarcar da gente mesmo. Esse problema da escuta não é exclusivo dos casais, este é um problema humano. E ainda que seja um problema essencialmente humano, trata-se de uma das experiências que mais desejam, anseiam e necessitam. Casais que se escutam mutuamente e deixam espaço na relação para a escuta tendem a resolver seus conflitos de forma mais equilibrada. Dessas acepções, só podemos nos sentir amados quando somos escutados.

As dificuldades de ouvir são muitas, pois ao ouvir somos tentados a inferir algo, nem sempre se está preparado para as demandas do outro, nem sempre sabe-se o que se faz a partir do que se ouve. Somos condicionados e provocados à dar uma solução ao que se ouve. Torna-se difícil ouvir e não poder ajudar, outra dificuldade é ouvir algo e acreditar que o interlocutor tem uma participação ou culpa e não conseguir convencê-lo de sua responsabilidade.

Para além das dificuldades do escutar, existe algo que é essencial para todos nós, que é uma presença compassiva, disposta a se conectar com o outro, oferecendo-se a si mesmo como objeto transformador da experiência do outro. A experiência tem me mostrado que quanto mais somos capazes de ouvir a experiência de outra pessoas, sem julgamentos, sem prerrogativas, simplesmente embarcando na experiência que estão descrevendo através da compaixão, isso aumenta a possibilidade de as pessoas experimentarem leveza e ressignificação de suas experiências dolorosas. Uma postura oposta à esse processo seria responsabilizar e culpar o outro, aumentando ainda mais sua rigidez e as defesas que já estão postas.

Todos nós buscamos esse “estar com”, seja de forma transcendental ou relacional, essa é a forma mais poderosa de cura, a nossa presença. Permita-se fazer isso pelo outro.

Por Priscilla Andrade

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