Comportamento, Homem & Mulher, Relacionamento, Sociedade

Se arrependimento matasse…

Se arrependimento matasse, eu estaria morta. Mas arrependimento é só para quem está vivo, morto não se arrepende. Talvez aí esteja uma lógica interessante, se há vida, há arrependimento, no entanto, é na vida que sentimos as maiores angústias, pois o arrependimento nada mais é do que o angustiante reconhecimento da culpa.

Quem nunca se arrependeu por ter feito algo? Quem nunca se arrependeu por ter comprado algo que não tem serventia? Quem nunca se arrependeu por ter dito uma palavra que não precisava? Quem nunca se arrependeu por ter construído um relacionamento que estava na cara que não daria certo? Quem nunca se arrependeu por ter dito uma palavra em hora errada? Quem nunca se arrependeu por uma enorme lista de coisas passíveis de arrependimento, que ao pensarmos nelas, entramos num túnel de revitimização, que só nos faz sentir a dor tudo de novo. A criança se arrepende por não ter escolhido um brinquedo mais divertido, o jovem se arrepende por ter escolhido a faculdade errada e o velho se arrepende de tantas coisas que poderia ter feito e não fez, ter dito e não disse, que lhe faltam até forças para falar sobre seus arrependimentos.

A questão é que Arrependimento é somente para nós, simples mortais, seres errantes, totalmente desprovidos da divindade que caso tivéssemos uma natureza divina, faríamos escolhas sem nos arrepender. Alguns enchem a boca com um tom de superioridade ilusória que só se arrepende do que “não” fez, como que se arrependimento fosse sentimento para gente fraca. Digo que arrepender-se pelo que fez é para o fortes, pois o arrependimento é inerente à escolha. Como assim se arrepender do que não fez? O arrependimento é um sentimento presente que só se remete à uma ação passada que existiu. A resposta que eu tenho para quem se arrepende pelo que “não” fez é que não dá para se arrepender pelo não feito, o máximo que dá para se ter é saudades. O filósofo Montaigne dedicou o assunto do Arrependimento em um de seus ensaios, lá ele próprio diz: “Não cabe propriamente Arrependimento pelas coisas que não estão em nosso poder, assim como não cabem as saudades.”

Você pode estar se perguntando, já que o Arrependimento é o angustiante reconhecimento da culpa por usarmos o nosso arbítrio de forma equivocada, para que serve esse sentimento que nos deixa impotentes, pois, agiu-se mal e aflige-se com isso? O arrependimento serve para fazermos de novo, fazermos de forma diferente ou simplesmente não fazermos mais.

Algumas pessoas indagam: “Eu não sei o porquê fiz aquilo, mas eu fiz e me arrependo de ter feito”. O que está posto não é o “Porquê” fez aquilo, mas “Como” é que fez aquilo. Como” que aquela escolha provocou esse Arrependimento. Como você poderia ter feito diferente para não se arrepender. O “Como” é diferente do “Porquê”, no sentido do “Como” trazer reflexão para fazer diferente e o “Porque” ser reducionista demais. O “porque” nos deixa sem respostas caso não se encontro o “Porque”, o “Como” nos coloca a possibilidade de fazer diferente.

É interessante pensar que no mesmo mundo onde se exigem respostas rápidas e assertivas, também se exigem fazer boas escolhas, se olharmos para o fenômeno do hedonismo em que o prazer está acima de tudo, o sentido do Arrependimento que é esse angustiante reconhecimento da culpa acaba sendo incongruente para os que só desejam o prazer. Diante disso, torna-se necessário um certo cuidado para que a vida não fique funcional e só prazerosa demais, viver é angustiante sim, encarar de vez em quando “Como agimos mal” pode contribuir para uma vida mais plena de sentido e profundidade, pois é indiscutível o valor moral do Arrependimento, caso contrário só fica a Arrogância.

Na minha opinião uma boa coisa para se Arrepender talvez seja pelo amor dado, esse além de ser bom dar ainda lhe traz algo de volta, mesmo que não seja logo ou da forma como se espera, e isto eu concordo com o poeta Carlos Drumond de Andrade:

“Que nunca te arrependas pelo amor dado, faz parte da vida arriscar-se por um sonho.

Porque se não fosse assim, nunca teríamos sonhado. 

Mas, antes de tudo, que você saiba que tem aliado, ele se chama TEMPO.. seu melhor amigo.

Só ele pode dar todas as certezas do amanhã.

A certeza que realmente você amou.

A certeza que realmente você foi amada.”

Carlos Drummond de Andrade

 

Por Priscilla Andrade

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