Quem disse que psicologia é coisa pra louco?

*Por Priscilla Andrade Camilo

Em pleno século XXI, com a sociedade altamente tecnológica, ainda assim não é raro encontrar em meu caminho pessoas que dizem: “Você é psicóloga? Deve entender bem de loucos, né?!” Alguns fazem perguntas relacionadas ao cotidiano como educação de filhos, casamento e vida profissional, porém, quando eu preciso indicar uma psicoterapia, percebo que alguns se esquivam por preconceito, acham que psicoterapia não é o caso deles, já que não são loucos, sendo seus dilemas comuns à vida de todos nós.

Os fundamentos desse “preconceito” acerca do papel de uma psicoterapia e também sobre quando procurar um psicólogo ainda é, para muitos, confuso, mesmo a Psicologia em ascensão como área do conhecimento.

Essa confusão na compreensão de que psicólogo é “coisa pra loucos” vem de crenças erradas e atrasadas acerca das possibilidades de atuação do psicólogo. Motivos são multifacetados, pois envolvem entender um conceito complexo como, por exemplo, o que é normalidade. Também, de compreender um pouco da história de como a Psicologia e Psiquiatria se estruturaram em sua história, até constituírem-se cientificamente.

Se tentamos analisar o que é a normalidade em saúde mental, esbarraremos em conceitos tais como: “Normalidade é definido como padrões de comportamento ou traços de personalidade típicos que estejam em conformidade com certos padrões adequados e aceitáveis de se comportar e agir” (Kaplan, p.31). Essa definição não cobre a ambiguidade, o que é normal pode variar de acordo com a cultura, podendo, ainda, variar de acordo com julgamentos destes valores.

A OMS (Organização Mundial da Saúde) define normalidade como um estado completo de bem-estar físico, mental e social. Mais uma vez, essa definição também restringe saúde física e mental como ausência de doenças físicas e mentais.

O atual DSM-IV-TR (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) cita que os comportamentos que diferem dos padrões (p.ex., políticos, religiosos ou sexuais) ou conflitos entre os indivíduos e a sociedade não são transtornos mentais.

A revista científica Mental Healthy define saúde mental como a realização bem-sucedida das funções mentais em termos de raciocínio, humor e comportamento, que resulta em atividades produtivas, relacionamentos satisfatórios e capacidade de se adaptar a mudanças e enfrentar adversidades.

Conforme as diversas visões do que seria a normalidade e do que é saúde mental, pode-se compreender que há diferenças. No entanto, essas diferenças emergem essencialmente de um conceito saúde x doença, de uma visão apenas biologizante dos indivíduos, que pode não compreender a totalidade desse sujeito biopsicossocial, que interage com o meio ambiente e é influenciado por ele, sendo esses elementos constitutivos da subjetividade dos indivíduos.

A psicologia tem suas raízes há mais de 2.000 anos, os primeiros registros nos escritos dos eruditos traziam tentativas de compreensão dessa natureza humana e como o corpo se relaciona com a mente. Para chegarmos na psicologia tal como ela é hoje, passamos por Sócrates, Platão e Aristóteles, que já tratavam das questões se a mente e o corpo estão conectados ou separados. Buda e Confúcio dedicaram sua atenção aos poderes das ideias e John Locke já trazia a ideia da mente como uma “folha em branco”.

O nascimento da psicologia científica, tal como a conhecemos hoje, nasceu em um laboratório na Alemanha no final do século XIX, quando Wilhelm Wundt fez os primeiros experimentos de psicologia. Lá começou se a pesquisar os elementos básicos da mente, nesse sentido ela se inicia como uma ciência da vida mental. Na década de 1920 ela evolui para uma ciência dos comportamentos e dos processos mentais. Diante disso, percebe-se que a construção histórica da psicologia passa por diversas áreas do conhecimento, iniciando na filosofia, passa pela biologia e genética e atravessa os fatores do ambiente, como a cultura, para que se compreenda como o comportamento e o pensamento variam entre culturas. Levantadas essas questões, é possível perceber que a psicologia se desenvolve pela junção de vários campos de conhecimento, que vão da filosofia à neurociência. Um comportamento pode ser observado pelo ponto que converge diferentes disciplinas, no entanto a área da psicologia ainda tem uma herança biologizante, o que não é saúde é doença, por esses e outros motivos históricos que não cabe contemplar aqui, a reforma psiquiátrica muito contribuiu para que se mudasse alguns conceitos acerca da loucura.

O conto machadiano “O alienista” traz brilhantemente a realidade das concepções acerca da loucura em meados do século XX. Nesse conto literário, Machado de Assis comenta o surgimento dos primeiros asilos para pacientes com problemas mentais, lá é possível observar o conceito de “loucura” como uma patologia mental, ainda que é possível perceber que, naquela época, os ditos “loucos” eram sujeitos que desviavam um comportamento socialmente constituído. Ainda hoje o conceito de doença mental relaciona-se à um afastamento das normas sociais e ética estabelecida, nesse sentido, querer tratar essas questões não médicas por bases médicas era uma maneira higienista de extinguir irregularidades e criar conceitos do normal e o anormal.

A revolução surge no final do século XX com a psicanálise, com ela inicia-se a revolução dos conceitos entre o normal e o anormal. Conforme Fraize Pereira (1984), a significação psicanalítica da loucura não opõe o que é normal e anormal, pois considera os sentimentos de angústia, dor, além das fantasias e desejos humanos constituem a vida psíquica de todos os indivíduos. Foucault (1984), que foi um crítico importante dos modelos psiquiátricos existentes, em suas observações, mencionou que a patologia mental só tem valor de doença numa cultura que a reconhece como tal, além de defender que a exclusão do louco é porque ele insiste em seu direto à singularidade e à interioridade.

A psicanálise, de certa forma, contribuiu com a psiquiatria na quebra de paradigmas e por tratar a vida psíquica dos indivíduos, sem taxa-los de loucos. Em decorrência desse longo processo, a psiquiatria também se desenvolve nas descobertas de novos transtornos, distúrbios, doenças psiquiátricas e no oferecimento de tratamento medicamentoso, quando há indicação para tal.

Todo esse recorte histórico, longo e complexo têm, como pano de fundo, a tentativa de explicar a insistência dos preconceitos, ainda hoje existentes em nossa sociedade, acerca do papel da psicoterapia e do psicólogo e a sua relação com a loucura.

A Psicologia, por ser considerada uma ciência jovem se comparada à outras áreas do conhecimento como Medicina e Direito, consolida-se cientificamente em meados do século XIX e XX, no entanto, seus avanços já são percebidos em áreas que o psicólogo não atuava tão intensamente como hoje atua, como é o caso de psicólogos em hospitais, instituições públicas e privadas, áreas organizacionais, clínicas particulares e ONGs por todo mundo. A expansão da atuação do psicólogo nessas áreas já seria suficiente para quebrar os velhos paradigmas, no entanto, compreender as raízes históricas não justifica a existência desses preconceitos ainda, mas pode explicar de onde se originou e, assim, promover a quebra desses conceitos antigos.

O psicólogo pode e deve ser procurado por indivíduos que desejam trabalhar questões individuais ou coletivas, que incluam aspectos acerca do comportamento, sentimento, emoção e pensamento. Diante disso, o psicólogo é este profissional que se propõe a trabalhar com todos os aspectos que podem envolver sofrimento psíquico, que cause prejuízos no nível físico, individual, familiar, produtivo e nas relações dos indivíduos.

No próximo post eu explorarei mais aspectos de quando procurar um psicólogo, e como esse profissional pode lhe ajudar. Até lá.

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