Comportamento, Psicologia

Quando mudar é preciso, mas não consigo

A busca por recursos que permitem aos indivíduos alcançar as mudanças em seus hábitos e comportamentos são múltiplos, podem iniciar com um processo de autoconhecimento auxiliado por livros, conversas informais com colegas de trabalho ou familiares no nível privado, psicoterapia individual ou em grupo e processos de coaching.

O processo de mudança é sofrido, na maioria das vezes, deve-se envolver abandono de hábitos e crenças que foram sendo sedimentadas ao longo da caminhada da formação dos indivíduos. A condição para que se viabilize as mudanças necessárias passam pelo fortalecimento da razão, que nesse caso envolve um amadurecimentos no sentido de alcançar a tolerância à frustração, abandonar os benefícios secundários que permitem que os comportamentos permaneçam.

A vivência em atendimentos em psicoterapia individual ou em grupo é atravessada por questões sobre mudanças de hábitos e comportamentos dos pacientes, estes, ainda que estejam  conscientes da necessidade da mudança, podem encontrar muitos obstáculos para alcançar as mudanças que necessitam.

Não é raro, no caso dos profissionais da saúde defrontar-se com situações limítrofes, como nos casos de vícios, compulsões e adicções que colocam a vida dos indivíduos em risco ou vulnerabilidades, estes casos a única possibilidade que se coloca ao indivíduo é mudança.

Por que mesmo percebendo-se a necessidade de mudança, ainda assim encontra-se tantos obstáculos?

Os indivíduos em geral percebem um mesmo fato de formas diferentes, isto se deve em partes pela compreensão de como o indivíduo interpreta o mundo através de suas ideias e pensamentos. Nesse sentido, um mesmo fato que pode-se gerar mudanças em um indivíduo, nem sempre geram mudanças em outros.

Os fatores que demonstram a necessidade de uma mudança podem não ser o bastante, a razão que se impõe para que se mude é óbvia, no entanto, observa-se que no geral o medo da mudança, a culpa por abandonar os velhos hábitos e o imediatismo podem ser os grandes obstáculos à mudanças nos comportamentos e hábitos.

O medo é um poderoso obstáculo à mudança, somos mais propensos a repetir padrões ainda que se saiba que não são benéficos, esse registro psíquico da repetição é uma trilha já percorrida e menos trabalhosa. Mudar padrões é um terreno novo, trilha desconhecida pode dar medo. Outro obstáculo à mudança é a culpa, que se relaciona à uma crença distorcida que se o indivíduo mudar ele pode causar algum malefício para o outro, ou seja, a mudança deixaria de beneficiar algum outro. O imediatismo também é uma barreira para a mudança, pois mudar implica em processo, processo implica tempo, um hábito ou comportamento foi sendo construído ao longo de uma vida, desconstruí-lo não será do dia para noite. O imediatismo é um obstáculo também para a mudança, pois na maioria das vezes,  deseja-se alcançar os resultados da mudança sem antes construir o processo para a mudança.

No trabalho em psicoterapia, quando envolve o processo de mudança de hábitos e comportamentos deve-se investigar quais são  os ganhos secundários que faz com que a maioria dos comportamentos permaneçam, tal aspecto investigativo por parte do psicólogo envolve conhecer a história do paciente, seus relacionamentos e suas ideias à respeito de tal comportamento, para que a partir de então inicie-se o trabalho dos aspectos psíquicos que estão envolvidos no processo.

Alguns exemplos como vícios e compulsões na grande maioria dos casos existem  ganhos secundários, como atenção, prazer, afeto, cuidado e olhar do outro sobre o indivíduo que sofre. Esses ganhos secundários são percebidos pelos indivíduos que sofrem por seus comportamentos como uma espécie de benefício, uma vez tendo o  indivíduo construído essa percepção sobre o fato fica difícil acontecer a mudança. Um exemplo prático seria o caso do abandono ao vício do cigarro, nesses casos o abandono ao vício implica em renunciar o prazer momentâneo em detrimento aos benefícios que se colherá lá na frente. Para renunciar um prazer imediato precisa ter muita razão envolvida em troca de um benefício maior no futuro. No caso da obesidade, a ingestão compulsiva por alimentos tem como ganho secundário desse comportamento, a percepção de plenitude e a diminuição da sensação de desamparo que o alimento provoca em altas quantidades. Existem  patologias tais como anorexia e bulimia que é possível encontrar algum ganho secundário, ainda que exista sofrimento aparente físico e psíquico, nesses casos os ato “heroicos” de controlar seu apetite ou conseguir ficar sem várias refeições ao longo do dia, podem ser aspectos percebidos pelos doentes como um ganho secundário da patologia instalada, tais atos “heroicos” são amplamente difundido nas redes sociais em grupos fechados de pessoas com anorexia.

Em casos de problemas existenciais relacionados ao abandono, questões sexuais, desamparo, rejeições e traumas, as psicoterapias podem ajudar a construir caminhos no entendimento das razões que geraram a percepção de tais questões, conduzindo o indivíduo para uma ressignificação dessa questões.

A mudança sempre é possível, no entanto, para que a mudança seja viabilizada, é necessário confiar no vínculo que se estabelece com o psicoterapeuta, sendo que no processo de fortalecimento da razão, a tolerância à frustração e o abandono de algo percebido como ganho poderá ser desconstruído afim de alcançar benefícios que se estenderão por toda a vida.

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