Comportamento, Feminino, Mulher

A Beleza, beauty, beauté impossível

A noção de belo como objeto estético surge com a noção de gosto, que é a capacidade de discernir o belo. Esse conceito é novo na cronologia histórica, conforme o Dicionário de Filosofia Abbagnano, surge no século XVIII. Sem essa noção do que é belo, o termo era usado para se referir a tudo que manifestava o bem, o verdadeiro, o simétrico e com perfeição expressiva. O termo beleza vem do que se nomeia belo.

A estética da qual a mídia explora hoje não é a da ciência filosófica da arte e do belo, mas se trata de práticas e produtos que se relacionam aos cuidados da beleza, principalmente da mulher. Eu, particularmente, gosto de recorrer a história para tentar entender as origens e sob quais parâmetros estão situados determinados conceitos.

É interessante perceber que, conforme descrito, o conceito de belo foi se transformando conforme a doutrina vigente. O belo como manifestação da verdade, que é própria do romantismo, nesse momento a beleza e verdade andam juntas. Fazendo um recorte histórico do conceito do belo no romantismo ao conceito do belo no século XXI, aparecem algumas diferenças que demonstram valores atribuídos ao conceito.

Se lhe perguntarem, de bate e pronto, o que é a beleza hoje, é bem provável que virá à sua cabeça tudo o que se relaciona ao que a mídia, em propaganda televisiva, virtual ou impressa, tenta dizer todos os dias.

A mídia de consumo e beleza tenta estabelecer um ideal de beleza, criando um desejo de perfeição que traz sérias consequências para a estima da mulher. Muitas vezes provoca um senso de inadequação e ansiedade que, por sua vez, são causadores de distúrbios alimentares como anorexia ou bulimia, além do gasto excessivo com produtos e serviços ligados à estética.

Mas afinal, existe limite para se ter beleza? Algumas fotos de artistas e celebridades nos levam a pensar que sim. Se não existem limites, deviam existir, principalmente quando vemos excessos praticados nos usos de preenchimentos e procedimentos mau conduzidos, que fazem o sujeito parecer uma aberração da natureza.

A beleza feminina tem uma história que mostra, do século XVI em diante, mudanças em relação à valorização das superfícies (pele do rosto, o colo) e, também, do corpo. Por último, a expressão dos sentimentos que permitem perceber quão diferentes os parâmetros de beleza feminina foram se tornando.

A ênfase sobre a beleza no corpo da mulher foi mudando também. No século XVI existia uma valorização das partes de cima do corpo, a intensidade do olhar, o rosto… assim, vieram os espartilhos para valorizar traços dos seios e da cintura para cima. Posteriormente veio a valorização das partes mais baixas, os flancos (que hoje as mulheres querem derreter na criolipólise), as pernas (hoje a mulherada só quer fazer agachamento nas academias) e os quadris (marca das brazilians womens lá fora).

Os padrões de beleza atuais se transformaram entre os séculos XIX e XXI com os acontecimentos de 1789, onde as mulheres manifestaram sua submissão política, jurídica, econômica e educacional, passando pelo direto ao voto no movimento sufragista da Inglaterra, sinalizando, a partir daí, outras reivindicações (educação, igualdade no trabalho) gerando uma onda de conquistas para a liberação feminina. Já no final do século XIX, o corpo simboliza em si essa liberdade conquistada, tornando-o mais autônomo e livre, expresso na dança, na música e nas roupas. Essas mudanças vão desde a valorizada barriga saliente aristocrática para a barriga saliente de músculos.

A beleza hoje não dá sinais de respeito às singularidades de cada um. Os cabelos ficaram parecidos, os seios iguais, espelho e balança nem sempre são os melhores amigos das mulheres. A mídia continua sendo a grande influenciadora dos padrões, criando suas próprias ditaduras, trazendo ao mundo o American Way of Life, como se todas as mulheres fossem brancas, altas e loiras.

O grande resultado da lógica implícita de uma beleza produzida por esses padrões é que dia após dia nos defrontamos com mulheres infelizes, com distúrbios alimentares seríssimos e com baixa autoestima, um retrato disso está na pesquisa Dove/Unilever, em que nove em dez mulheres querem mudar alguma coisa no corpo.

A solução que tento imaginar para isso se dá ao recorrer no antigo padrão do belo, quando o belo, no romantismo, estava do lado do bem e da verdade. Hoje o que vemos é que o belo parece estar mais do lado do mau e da mentira, que digam os filtros do Photoshop que, ainda assim, não são suficientes para elevar a autoestima da mulher, mesmo mentindo sobre a realidade.

Eu sou uma militante da boa alimentação, vaidosa de carteirinha, cuido do meu corpo com exercícios, cremes para rosto e cabelo. Porém, é essencial construímos um discurso que não tenha como foco a alimentação saudável só para fins estéticos, no qual a vida sedentária não seja trocada por uma motivação obsessiva de transformação radical do corpo e que, acima de tudo, as pessoas não se “coisifiquem”, se importando só com o que está por fora, porque a maior beleza, ao meu ver, vem de dentro para fora.

Por Priscilla Andrade

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