Familia

Será que devemos ter o segundo filho?

O dilema de muitas mães que estão curtindo o primeiro filho é a dúvida e a incerteza se devem ou não ser mãe outra vez. No geral essa dúvida é maior entre as mães de bebês que já estão despedindo-se das fraldas, mamadeiras, cólicas, que é quando as mamães já estão recuperando suas noites mal dormidas, nesse momento pensar em passar por todos esse processo novamente é desanimador.

No Brasil, já vivemos a tendência das estatísticas de natalidade dos países do hemisfério Norte, no máximo um filho por casal. Diante desse fato, as consequências do tamanho da família, não ficam restritas somente às famílias,  elas se ampliam para discussões também no campo da economia, da política e da sociedade. As taxas de natalidade estão diminuindo no mundo inteiro, teremos menos jovens como força de trabalho no futuro, isso sem contar as questões da previdência, que com uma população idosa em ascensão, a matemática da contribuição previdenciária para aposentadoria não fecha.

A decisão de aumentar ou não a família passa por questões de ordem prática, do cotidiano, questões essas que estão dentro da família, vão desde quem vai ficar com essa criança, até como como possibilitar que essas crianças tenham ferramentas para competir no vasto mercado de trabalho no futuro, isso sem contar as questões de saúde, lazer e cultura.

A essência do dilema é complexa, porém a origem é simples e revolucionária: a inserção da mulher no mercado de trabalho.

Em outros tempos essa não era uma questão dilemática, muito pelo contrário, os filhos traziam mais sentido para essa mulher que estava estritamente no lar e “do lar”. Alguns dias atrás, eu percebi algo curioso ao preencher uma ficha em um determinado laboratório de análises clínicas , no formulário  havia uma simples pergunta: Qual sua profissão? Eu respondi minha profissão na opção “profissional liberal”, porém estranhei que não existia a opção “do lar” que antes existia na maioria das fichas. Eu estranhei porque conheço mulheres “do lar” satisfeitas, que abdicaram de suas profissões e  optaram em ser “do lar” ainda que esta categoria de mulheres estejam diminuindo cada vez mais.

A questão é que a opção “do lar” não é uma opção para a maioria das mulheres modernas. Essa opção “do lar” vem com o peso traumático das mães das mulheres de hoje que estão no mercado de trabalho. Algumas mulheres que hoje trabalham também cresceram ouvindo suas mães dizendo: “Minha filha nunca dependa de nenhum homem, por isso trabalhe e tenha seu dinheiro!”

Minha geração são as de filhas das mães que também foram marcadas pelo trauma da dependência financeira do marido,  onde não havia parceria entre o casal, somente existia o lema: Manda quem pode, obedece quem não ganha!

Sem generalizar os casos, havia sim mulheres que se sentiam-se satisfeitas com sua situação e isso não lhes causava grandes sofrimentos. A questão é que diferente de hoje, antigamente,  as mulheres em sua maioria não tinham escolhas, em decorrência de suas não escolhas sofriam.

Em alguns casos essas mulheres não podiam decidir se queriam ou não ter filhos, ter filhos não era uma opção na maioria das vezes, a maternidade vinha como a única opção.

Na sociedade de mercado dinheiro é poder. Você existe para o outro a partir do seu poder de consumo. Decide e manda quem ganha o dinheiro, salvo alguns casos que são raras exceções. Posto isso, a mulher no mercado de trabalho está decidindo mais , não só quanto ao número de filhos que gostaria ter, embora  ainda existam desafios à serem superados, como as desigualdades de salários entre homens e mulheres que chegam a ganhar em média 30% menos que os homens, ainda que desempenham as mesmas funções que eles.

Se o casal optar por ter o segundo filho, é sabido que a divisão de trabalho deve existir entre o casal. Em alguns casos esta divisão não é muito justa, para a maioria dos casos se torna multiplicação de trabalho para mulher, e não divisão de trabalho entre o casal. Só seria divisão de trabalho, se todos as partes assumissem as mesmas responsabilidades, as duplas jornadas de trabalho já que hoje todos os cônjuges trabalham fora.

O sonho de ser mãe para a maioria das mulheres que trabalham, mas que não encontram parceria total de seus companheiros vira um pesadelo, em ultima hipótese, acontece até divórcio entre o casal após o primeiro filho. O detalhe é que nem sempre se constata esta parceria entre os casais. A “parceria total” envolve compartilhar todos os cuidados que requer uma criança, tais como alimentação, cuidados básicos, atenção às necessidades emocionais e físicas e educação.

Vários aspectos devem ser analisados pelo casal antes de se decidir se ter ou não um segundo filho, porém alguns aspectos que se relacionam à realidade prática com a vinda de um segundo filho, devem ser observados para que a realidade não se imponha como um efeito surpresa.

  • Decidir ter um filho NUNCA deve ser baseada de forma emocional. Se for uma decisão emocional esta poderá estar relacionada à dependência dos pais por reconhecimento dos outros, admiração e sentido que essa criança poderá trazer ao casal. Para que uma criança venha o sentido da existência do casal deve ter sido encontrada antes da chegada desse filho.
  • Se existem questões mal resolvidas na vida do casal, estas precisam ser observadas antes da decisão do segundo filho . Em alguns casos, os casais podem desejar o segundo filho como uma tentativa de resolução para apaziguar possíveis conflitos existentes entre o casal. Em minha experiência clínica já pude observar que esta forma de não enfrentamento do problema real pode ser frustrante para o casal.
  • Parceria total do casal nas tarefas e responsabilidades que envolvem a vinda do segundo filho.
  • O desejo e a vontade de se ter o segundo filho deve ser compartilhada por ambos, nunca essa decisão deverá vir só de um dos cônjuges.
  • Ter um filho único também é uma possibilidade, principalmente se as condições emocionais e financeiras do casal não permitem a vinda do segundo filho.
  • A falsa realidade que de “todas” as mulheres nasceram para ser mãe pode não ser verdade. É possível ser uma mulher plena sem ser mãe, exercendo outras funções e encontrando sentido de existência em outros aspectos da vida. Eu conheço alguns exemplos dessas!
  • A decisão ou não do segundo filho pelo casal têm que estar livre dos julgamentos, vontades e críticas de familiares e amigos, sendo essa questão pertinente somente ao casal.
  • As questões que envolvem a tentativa de ter um segundo filho oposto ao sexo do primeiro é uma estatística arriscada, existe sim 50% de chance de vir um segundo filho do sexo oposto ao do primeiro filho, mas o contrário também é uma verdade. Existe também 50% de chance de ter o segundo filho do mesmo sexo do primeiro, ou seja pode não dar certo.

Essas questões são de ordem prática, um pouco racional, porém se o casal envolver-se somente em escolhas baseadas na ordem do desejo, poderá desprezá-las desconsiderando esse aspecto prático que é importante na vida. Com isso, não acredito que tudo deve ser decidido só racionalmente, somos dotados de sentimento e emoção, principalmente com as questões maternas e paternas, no entanto, essa decisão deve ser ponderada para que o futuro não revele falsas expectativas e profundas frustrações.

Por Priscilla Andrade

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