Amor, Homem & Mulher

O que os meus relacionamentos amorosos dizem sobre mim?

Quando nos apaixonamos ou amamos alguém, abrimos possibilidades de entrar em contato com aspectos de nossa personalidade nunca antes experimentadas. Não é a toa que muito já se explorou na literatura sobre aspectos sombrios e patológicos do amor, como crimes passionais e loucuras de amor. A verdade é que administramos e manipulamos a vida, a fim de evitar alguns sentimentos que ameaçam nossa identidade e segurança, porém, esse jogo é vencido quando entra na questão do amor.

Quando vivenciamos um relacionamento – entenda-se relacionamento como namoro e casamento, exclui-se os “peguetes” ou “ficantes” – ou seja, que envolvem mais convivência e tolerância, os parceiros sempre confrontam hábitos, as fraquezas ficam mais perenes e aquele terreno indomável toma proporções maiores. Quando falo de terreno indomável, é porque todo o esforço em esconder certos aspectos de nossa personalidade, ou de criar fórmulas que não correspondam com uma realidade, será inútil. Uma hora o nosso “eu real” aparece, sem dar sinais.

Um relacionamento que conta com um certo nível de profundidade tem poder de penetrar nas defesas que criamos, de maneira que nossos pontos frágeis e vulneráveis ficam expostos. Dessa forma, para vivenciar o amor, requer certa coragem de se abrir e estar aberto para ser ferido. A questão é que, por alguns instantes, acreditamos que amar é viver um sonho sem pesadelos, talvez os romances americanos “água com açúcar”, de certa forma, contribuam para essa crença. Porém, quanto mais fugimos afim de evitar o ferimento do amor, tudo que alcançamos é a impossibilidade de se abrir por inteiro, que terá como consequência a impossibilidade de se vivenciar uma ligação íntima e profunda.

É claro que ninguém gosta de sentir dor, ainda mais a dor de amor que dói a alma, essa dor nenhuma indústria farmacêutica se encarregou de desenvolver uma morfina poderosa para ela. A questão é que não existem muitas saídas, pois ao nos relacionarmos com as dores de amor, existem dois caminhos que podem ser trilhados. Se o considerarmos como uma ameaça, é natural querer fugir ou evitá-lo, no entanto o esforço empreendido poderá mantê-lo à certa distância, mas a distância não permite que haja os encontros. Porém, é justamente no encontro com o outro, que as nossas vulnerabilidades são expostas, lá que se trabalha a capacidade de amar livremente.

O outro caminho possível de ser trilhado é trabalhar a partir da nossa dor, sim ela pode servir de uma ajuda inestimável, pois sinaliza lugares que estão como músculos retraídos e encolhidos pelas defesas rígidas que necessitam se mover com maior fluidez.

Há um tempo atrás um homem compartilhou comigo uma história de traição de sua mulher, a dor que esse homem sentia era tremenda. Era uma relação duradoura, aliás a única relação duradoura que ele tinha vivenciado. Antes dessa mulher, quando passava por alguma dificuldade nos relacionamentos a decisão de romper era certa, sem maiores obstáculos já se preparava para sair a procura de novas companheiras. Porém, desta vez foi diferente, aquilo que ele mais temia aconteceu com ele: a dor da traição. Como a maioria dos mortais o primeiro impulso foi se fechar e afastar-se da mulher. Mas tentar controlar seus sentimentos lhe colocava numa situação de desmotivação com a vida, como se a única garantia para se viver era estar bem fechado. No entanto, abrir o coração o colocaria numa dor angustiante que não sabia lidar.

Confrontar a dor intensa pode ser terrível, perguntar (“O que realmente me dói?”), conhecer um pouco mais sobre esse terrível sentimento, pode ser um caminho para começar à sentir-se mais confortável, conversar sobre ela com alguém pode ser uma forma de nos ligar à ela.

Assim, trabalhando com esse homem, coloquei-o em contato com sua dor, sem dar-lhe maiores explicações ou tentar consertar qualquer situação deixei fluir, foi como que se as comportas de uma usina hidrelétrica jorrasse toda a água, gerando muita energia. Ao entrar em contato com a dor esse homem, foi percebido que a dor dele não era a de ter sido traído, sim a de nunca ter se entregue profundamente em um relacionamento. Ele funcionava a partir de sua dor, afastando-se das mulheres, insensível aos sentimentos delas, sem nunca investir em relacionamentos duradouros, por conta do seu medo de se entregar. Assim, ao invés de ficar culpando sua parceira, ou generalizando todas as mulheres, ele descobriu padrões de negação e medo que estavam estabelecidos nele e que impossibilitavam de viver plenamente um relacionamento.

Ninguém quer sentir dor, porém essa estratégia de não sentir dor só é útil na infância, na vida adulta invariavelmente vamos senti-la, se conseguirmos identificá-la podemos conhecer nossas maiores necessidades.

Dessa forma os relacionamentos podem servir como pontes espelhadas, que nos mostra quem nós somos de verdade, e nos conduz à um caminho que sem a ponte seria impossível alcançá-lo. Em um nível mais profundo promovem uma melhor relação com nós mesmos, isso envolve descobrir nossos verdadeiros medos e necessidades, para ser viver um relacionamento é preciso se submeter, no entanto estar sozinho por fuga ou ameaça não garante que a jornada será menos sofrida.

Homem & Mulher, Relacionamento, Amor

 

Por Priscilla Andrade

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