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Levando mais uma montanha para casa!

O título desse texto “Levando mais uma montanha para casa” era a frase que o narrador da corrida saudava à todos que, como eu, cruzavam a chegada final da corrida K21, corrida de aventura que aconteceu neste último final de semana em Maresias litoral norte de São Paulo.

A corrida K21 é realizada em países como Chile, Argentina, Peru e em lugares que sejam montanhosos, como na Patagônia, ou lugares com cachoeiras, mar e muitas horas para você desfrutar da natureza. O trajeto de Maresias como não podia ser diferente, havia muito mar ao redor,  porém ao contrário do que se possa imaginar, haviam morros extremamente íngremes, que chegávamos à ter que engatinhar para subi-los, cordas para se segurar e passar em determinados trechos mais difíceis, e também muita beleza para contemplar como cachoeiras refrescantes e toda a exuberância da mata atlântica que contorna esse lindo litoral de São Paulo.

Quando comecei a perceber o tamanho do desafio que estava à minha frente, pensei comigo, o objetivo aqui não será correr no meu menor tempo, mas sim completar a prova, pois pelo trajeto seria mais uma prova de resistência, superação e controle mental para chegar ao fim por conta das dificuldades encontradas. Encarei o desafio porque sou movida todos os dias por ele, já corro à algum tempo e seria uma corrida diferente das que eu faço em São Paulo, e de quebra, com uma turma sensacional que convivo semanalmente.

Já na largada, quando de longe eu avistei a primeira montanha que teríamos que cruzar, tive a certeza que aquela não seria uma provinha qualquer, dessas que eu já tinha participado, seria a prova de várias coisas que eu experimentaria ineditamente e tão profundamente.

Saímos da largada da prova de Maresias, domingo de inverno com jeito de domingo de verão, sol sem nenhuma nuvem no céu, crianças na praia olhando aquele monte de gente saindo em disparada, por um momento tive a impressão que eles deviam estar lembrando de algo parecido com aquele pelotão empolgados à sua frente, todos estavam parecidos com crianças da última aula de educação física, tamanha era a nossa empolgação inicial, risadas, zoeiras e pouco suor, pelo menos no início foi assim.

Durante o trajeto tive uma série de pequenas experiências sozinha ou em grupo, tais experiências me levaram a refletir sobre vários aspectos da vida, que vão acontecendo rapidamente, mas que para que para mim durante a prova passaram no modo “câmera lenta” em minha percepção.

Eu participei da prova sem querer saber muito à respeito do trajeto, talvez isso faça parte um processo ao qual tenho trabalhado comigo, tenho tentado sair um pouco da necessidade prever as coisas afim de controlá-las, dessa forma, fui me deixando ser surpreendida pelas trilhas, pelas cachoeiras que íamos passando, mas confesso que quando chegou o primeiro morro enorme, ao subir, já pensei que eu devia ter me preparado melhor, de forma que, se eu tivesse olhado o trajeto, eu poderia ter me equipado melhor, trazendo maior quantidade de carboidrato em gel, pois precisaria de muita energia durante a prova, óculos mais apropriados que não caísse tanto, tênis que oferecesse  maior estabilidade para terrenos lamacentos e por aí vai. Nada contra para quem se preparou melhor no quesito suprimentos, inclusive esse é outro aspecto eu diria bem hilário durante a prova, olhando ao meu redor tinha gente que só não trouxe a barraca porque pesaria muito na mochila.

Durante a prova o que fez que eu pensasse mais em uma prova mais de resistência do que de corrida, foi o fato que, não sei se por falha da organização da corrida ou por estratégia do tipo de corrida de resistência, ficamos uns 7Km sem água disponível durante o trajeto, quando chegávamos nos postos de água só encontrávamos restos de copo pelo caminho, a indignação coletiva tomava conta da gente, com boca seca e as pernas cansadas, eu mesma reclamei muito dizendo que aquilo que estava acontecendo era um absurdo. Nesse momento contávamos com a generosidade do nossos colegas de equipe mais bem preparados, que tinham água, isotônicos que eram compartilhados com várias bocas, sim isso mesmo nada de “nojinho” nessa hora.

Teve um momento que o meu grupo se dispersou, ficando só eu e a minha amiga que já corremos juntas por um tempo, a partir disso a corrida começou a ficar mais difícil, além de termos somente uma à outra para contarmos, sem a motivação e cooperação mútua dos nossos colegas, começamos a sentir a canseira, a sede era imensa e o cansaço era extremo. Nesse momento da corrida parecia que vários grupos tinham se dispersado, depois disso íamos encontrando pessoas correndo sozinhas ao longo do caminho. A falta de água durante o percurso me fez pensar que a água com gás na geladeira não é só uma água gaseificada mesmo. Aos 13km com pouca água, uma água oferecida por um homem  que disse que não havia água, porém se eu e minha amiga quiséssemos nos levaria logo a frente no quintal de um amigo,  aquela não foi só a melhor água com gás “Perrier” que eu já tomei na vida, aquela água foi o olhar gentil dos rapazes, que seja motivado por gentileza ou na contemplação da beleza da mulherada da prova acabou nos ajudando seguir por mais uns quilômetros à frente.

Corremos alguns trechos por praias de difícil acesso de carro, sendo possível contemplar praias paradisíacas, em uma dessas praias, eu avistei um menino tomando um sorvete de coco desses que vende no litoral de São Paulo. Nesse momento tive a certeza que não é só a realidade que nos leva à algum lugar, como é bom imaginar para sermos transportados para outro lugar de vez em quando! Imaginei o delicioso sorvete de coco que eu iria tomar mais algumas horas, quando eu chegasse em Maresias de volta. Motivada pela imaginação, pensei comigo, eu vou tomar um delicioso sorvete de coco para lembrar que a falta de algo nos faz valorizar o sabor delas. Nunca deixe algo acabar para perceber o valor que elas têm.

Posso dizer que não levei mochila nessa minha corrida, mas voltei carregada de experiências na minha “mochila imaginária” que eu trarei para minha vida. Nunca deixe de perceber o valor da coisas só quando elas faltarem, isso pode ser um erro. Em alguns momentos deixe-se conduzir por trilhas inesperadas, montanhas à serem transportadas, sempre é possível se deslumbrar com o novo e com o velho, pois tudo se renova, cada sensação é única. Mas quer saber de verdade, não importa o desafio, a corrida, ou a montanha, pode faltar água, gel de carboidrato ou ânimo para terminar a prova, mas a parceria do meu marido que eu avistava de longe e a demonstração de orgulho e carinho dos meus filhos ao cruzar a linha de chegada, faz eu querer muitas K21 na minha vida, pois com Deus e com eles eu sempre trarei mais uma montanha para casa, que era a frase que o narrador terminava a prova: Levando mais uma montanha para casa!

 

Por Priscilla Andrade

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