Amo o meu retrato!

Em tempos de selfies, dizer que ama o retrato parece antigo, antiquado e démodé. Conheço pessoas que odeiam ver os retratos delas mesmas. Eu, particularmente, adoro tirar fotos e sair em fotos. Sem falsa modéstia, confesso que gosto de fazer poses, caras e descobrir meus melhores ângulos. Fiz questão de dizer que gosto de tirar fotos porque sou do tempo das fotos e não dos retratos.

É interessante pensar que, pode ser, foto não se chame mais foto daqui para frente, quem sabe seu nome vai ser “selfie”. Retrato nos remete ao passado, foto ao presente e selfie o futuro.

Uma pesquisa publicada pela revista Time levantou a geografia dos selfies em todo mundo, ao todo foram levantadas 400 mil publicações que vinham com a tag “selfie” no instagram, sendo que a partir desses dados levantou-se um ranking das regiões do mundo onde se tiram mais selfies. O lugar que mais se tirou selfie, dentro do período pesquisado foi uma cidade chamada Makati, nas Filipinas, em segundo lugar apareceu a ilha de Manhatan, em Nova York e, em terceiro Miami, na Flórida.

Nem precisaríamos de tantos dados para chegar à conclusão que “selfie” é um fenômeno que veio para ficar. A disseminação de smartphones e tablets por todo o mundo contribuirá para isso.

O poema de Cassiano Ricardo “Você e seu retrato” não fala da foto nem do selfie, mas do retrato.

Por que tenho saudade
de você, no retrato,
ainda que o mais recente?
E por que um simples retrato,
mais que você, me comove,
se você mesma está presente?

O poema traz um dilema: ama-se mais o retrato do que a realidade da cena, como se houvesse uma distância entre a realidade e o retrato.

A partir daí, fica fácil compreender porque os amantes se apaixonam mais pelo retrato do que pelo ser amado de carne e osso mesmo.

A paixão é exclusiva no seu objeto, ela se apaixona exclusivamente pelo que ela espera enxergar, como que só fosse possível apaixonar-se por aquilo que se quer apaixonar, excluindo tudo o que está em volta. Talvez a paixão seja como um retrato, não muito nítido, ela esconde algumas nuances da imagem, cria uma ilusão de que o passado era melhor do que o presente, os contornos e formas ficam pouco nítidas, os olhos não retratam a veracidade da alma.

No final, o poema termina com uma indagação, um certo estranhamento de como se pode amar mais o retrato do que o que está presente. Aqui, se compara ao fenômeno psíquico da projeção. Tal fenômeno, muito na vida dos apaixonados… me apaixono pelo que eu projeto no outro, onde só aparece no outro aquilo que eu quero ver. Tal como o retrato, virou coisa do passado. Assim a paixão, para muitos, também fica no passado.

Por Priscilla Andrade

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